Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
Clarice Lispector
Para pensar...
"Na praia uma criança constrói um castelo de areia. Por um momento, contempla admirada a sua obra. Depois destrói tudo e constrói um outro castelo. Da mesma forma, o tempo permite que o globo terrestre realize seus experimentos. Aqui nesta praça se escreveu a história do mundo; aqui os acontecimentos foram gravados na memória das pessoas, e depois novamente apagados. Na Terra, a vida pulsa de forma desordenada, até que um belo dia nós somos modelados... com o mesmo e frágil material de nossos antepassados. O sopro do tempo nos perpassa, nos carrega e se incorpora a nós. Depois se desprende de nós e nos deixa cair. Somos arrebatados como num passe de mágica e depois novamente abandonados. Sempre há alguma coisa fermentando, à espera de tomar nosso lugar. Isso porque não temos um solo firme sob os nossos pés. Não temos sequer areia sob nossos pés. Nós somos areia."
Personagem do livro "O Dia do Curinga", de Jostein Gaarder.
Pouco de Filosofia
"Toda manhã acordo com um estalo. É como se a cada manhã alguma coisa me lembrasse de que estou vivo, de que um ser vivo vivendo uma aventura fantástica. Pois, afinal de contas, quem somos nós, Hans Thomas? Será que você pode me responder? Somos feitos de uma pequena porção de poeira estrelar. Mas o que significa isso? De onde vem esse mundo afinal?"
Personagem do livro "O Dia do Curinga", de Jostein Gaarder.
Conselhos de Duda
Sara e Duda conheciam-se há 19 anos, mas faziam apenas alguns meses que estavam realmente próximas. Com o passar do tempo o mundo providenciou para que seus caminhos se cruzassem de forma muito particular. Conselhos, desabafos, abraços, consolos e muita franqueza tornaram-se constantes na amizade das duas.
Certo dia, após escutar as “cautelosas neuras” de Sara, Duda sentiu que conselhos eram necessários: “Cuida,... Cuida pra não desconfiar de quem tu não tem a temer e que só quer te fazer feliz. Cuida pra não cair na ilusão de palavras que encantam, mas que só saem do teclado de um computador para uma tela, sem nem mesmo chegar ao papel. Quem sabe elas serão lembradas para sempre pela sua forma doce de tornar o mundo mais fácil de ser entendido, mas não esqueça que palavras as vezes não conseguem dizer o que um simples olhar explica. E lembra... nem todos os homens são iguais aos nossos Diogos”.
As palavras não poderiam ter tocado Sara de forma mais intensa.
Baixou a cabeça e prometeu a si mesma que tentaria acreditar.
Original Patrícia Brock da Fé
Adaptação Débora H.
Homens, Mulheres e Sara
       O horizonte laranja e lilás apontava o fim do dia. A conversa era sobre 27 fotos. Não... dia 27 e uma foto só. Sara leu Augusto e então fluíram palavras.
       Simpatizou com Marília. Uma ilusória identificação, acreditava. Outro estado, e-mails, prováveis confissões, possíveis declarações. Questionava a quanto tempo Marília existia e, se existia há tempo, parte dela se sentia enganada, mesmo que isso não fosse verdade. Apenas a inquietava Alagoas ser mais próximo que Rio de Janeiro. Mas isso não tinha mais cabimento.
       Por outro lado, Samanta a encomodava. Na verdade sempre a encomodou. Mas hoje, apesar de não haver mais o tal cabimento, encomodava mais. Parecia manhosa. E Sara nunca gostou de manha. Ciúme? Marília não a atingia dessa forma. Preconceito? Pode ser. Quem sabe não passava de fragilidade exagerada. Achou melhor não julgar, mas ainda a encomodava.
       E sentada em frente aos seus mais próximos amigos homens (que resolveram tirar a noite para tirá-la do sério), magoada com a atitude egoísta de ambos, percebeu que escrevia das mulheres de Augusto, com um sentimento estranho.
       Só lembrou de Mateus quando lhe perguntaram se estava a pensar nele usando apenas meias. Desviou a atenção das mulheres de Augusto para questionar se não estava sendo enganada durante os fins de semana de praia com família e programas com pai e avô.
       A fuga de Douglas. Provavelmente foi isso que afetou a confiança de Sara em homens. Seus amigos homens diziam que todos são iguais: traem. Resulta que muitas vezes se encontrava imaginando Mateus enviando mensagem a ela e logo beijando outra. Ná e Duda a julgavam metade neurótica, metade cautelosa. Decidiu então não mais tirar peça alguma, sem antes colocar pingos em certos “is”.
       Não queria algemas ou alianças ou papéis assinados. Pedia apenas um homem que beijasse uma mulher só. Um metro e setenta de mulher também não era tão pouco assim. Sem contar que, nesse caso em particular, química é o que não faltava, com direito à reações aceleradas por catalisadores. Entendam como quiserem.
       Esperou o telefone tocar, e foi ao planejamento.
       ...
       A aula de planejamento foi agradável. O intervalo pediu capuccino. Sara retornou ao lar silenciosa. Edu surpreendeu. Provou, sem querer, que não tem amigo melhor. O telefone tocou. Era apenas um amigo. Previu um fim de semana com peças de roupa.
       Uma cama vazia a esperava.
Débora H.
08 de Setembro de 2005.
Vida e Morte
Passam dias.
Novos anos.
Aprendi a lidar com a morte:
menos uma vida,
mais uma tristeza,
menos um abraço,
mais um canto vazio.
Restam lembranças.
A vida?
Talvez entenda
depois da morte...
Débora H.
07 de Setembro de 2005
Fim de Milênio
Caminhava na floresta molhada
e pisei no gnomo, caí na fada.
Desesperado
tentei falar com meu anjo da guarda.
Linha ocupada!
Minha lua em aquário
sempre me fez de otário
Fabio Rocha
Despedida
Dez minutos
interessantes
E mais segundos
incomparáveis
Quarto de hora
imprevisível
E cinco minutos
inevitáveis...
Inconseqüente?
Irresistível...
Despediu-se com
até breve...
Débora H.
Agosto de 2005
Poeminha do Contra
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Mario Quintana
Dei um pulo na Casa de Cultura Mario Quintana no último domingo e assisti Bailei na Curva (com ótimas companhias, por sinal!). Quando entrei na recepção, dei de cara com esse poema lapidado numa pedra de mármore... Mesmo já sendo bem conhecido, resolvi postar... Faz bastante sentido... Ah... recomendo a peça!
A rua dos cataventos
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mario Quintana